sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A poesia durante a Guerra Peninsular.

Durante o período das invasões Francesas, muitos foram os portugueses que deram largas à sua imaginação para enaltecerem a sua Pátria, ou simplesmente como forma de elevar o espírito dos seu compatriotas, que tão humilhados se sentiam com a invasão das Forças Francesas, que alegadamente vinham libertar o Povo e acabaram por o oprimir de forma inimaginável.

Os poemas eram não só uma formidável forma de propaganda anti-francesa, como motivadora da moral do povo, das elites e dos militares.

Com tempo irei colocar alguns poemas, citados nas obras da época ou em posteriores.
Será de forma esporadicamente, pois não é a minha área, nem o blog foi criado com este fim. Será uma mera curiosidade.

O poema abaixo encontra-se no 3 volume da genial obra de Cláudio de Chaby, cujo nome é “Excerptos historicos e collecção de documentos relativos á guerra denominada da Peninsula e às anteriores de 1801 , e do Roussillon e Cataluña"


Poema

Famoso Portugal, a tua gloria
Inda se não murchou, inda persiste ;
Em eternos padrões, no Céu existe,
Dos Heroes Lusos a immortal memória :

Inda lemos, nas paginas da Historia,
Os triumphos, que tu, ó índia viste ! . . .
Ah, se agora ao Francez se não resiste,
Nós não perdemos uma só victoria ! . . .

Em apparencia de leaes verdades,
Com que um PRÍNCIPE ás vezes se convence,
Se encobriram cruéis atrocidades!

Ah. que fomos vencidos ninguém pense !
À forca de traições e falsidades.

D´ Austerlitz o Heróe Portugal vence”

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um Reino sem emenda.

Este Reino não tem emenda. "Passeando" pela Biblioteca Nacional , descobri as emendas efectuados pelo fisco á então SISA, agora IMT.
Deve ser a manutenção da mania da receita e do control do défice.
Tal como dizem os Ingleses, certo só a morte e os impostos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Há 200 anos. 29 e de Outubro de 1808.

29- Napoleão Bonaparte sai de Paris, dirigindo-se para Espanha para comandar a campanha de reconquista de Espanha.

31- Decreto criando o Real Hospício Militar do Rio de Janeiro.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Marine de Portugal .


MICHEL, H., fl. ca. 1800-1809 Marine de Portugal [Visual gráfico = Portuguese Marine / H. Michel del. ; I. Clark sculp.. - London : J.Booth, 1809. - 1 gravura : água-tinta, aguarelada http://purl.pt/5326. - Dim. da comp. sem letra: 19x16,8 cmCDU 359(=469)"18"(084.1) 762(=1.410)"18"(084.1)


Biblioteca Nacional

domingo, 26 de outubro de 2008

Há 200 anos. 25 e 26 de Outubro de 1808.

25-Decreto do príncipe regente permitindo a readmissão dos oficiais que se haviam demitido aquando da invasão francesa.
26- Tropas britânicas, comandados pelo general Baird, de reforço ao exército de Moore, começam a desembarcar na Corunha. Tinham aportado no dia 13 anterior, mas não tinham tido autorização para desembarcar.
O general Moore inicia a marcha das forças britanicas e portuguesas em direção a Espanha, no que ficaria conhecido como a Campanha da Corunha.

UM OFICIAL INGLÊS EM LEIRIA -5 e final.

Conclusão
O resultado conjugado das devastações e sacrifícios das Invasões Francesas na população portuguesa favoreceu decisivamente uma mudança em termos sociais, políticos e, sobretudo, militares.
Em primeiro lugar, mudaram completamente as Forças Armadas e a sua ligação à sociedade. Lembremo-nos que a Marinha seguiu para o Brasil com a Corte e coube quase exclusivamente ao Exército ser o verdadeiro motor da mudança liberal em Portugal. Não por acaso, a Armada acabaria por apoiar essencialmente a monarquia absoluta, no conturbado período das guerras civis e convulsões internas, entre 1820 e 1834 a que se pode chamar o período da “zanga real”. De facto, a Inglaterra pagava sem hesitar ao Exército, do qual necessitava, introduzindo-lhe mudanças, mas pura e simplesmente não necessitava dos navios nacionais, pelo que não estava interessada em custear a sua manutenção.
O Exército que existia em 1807 também desapareceu de forma radical, muito em particular o seu corpo de oficiais. Uma parte foi com a Corte para o Brasil e nessa parte estavam as altas patentes, isto é, a maior fatia da nobreza do Reino. Uma outra parte foi enviada por Junot na famosa Legião Portuguesa, que partiu para França em 1808 e da qual somente alguns parcos sobreviventes apareceram em Portugal no ano de 1815. Um novo exército, maior e mais bem treinado, é criado pelos ingleses a partir de meados de 1808, baseado essencialmente nos elementos que se destacaram nos levantamentos contra os franceses, a partir dos quais são nomeadas centenas de oficiais pelas juntas de âmbito regional.
Evidentemente, o novo corpo de oficiais - proveniente da pequena nobreza, dos sectores educados urbanos e dos elementos mais competentes das milícias e ordenanças - não só tinha uma origem social diferente daquele que existira antes, como foi também montado de acordo com as ideias políticas inglesas correspondentes a uma monarquia constitucional liberal. A introdução de oficiais ingleses no exército português também contribuiu para a mudança.
Estão aqui as raízes do Liberalismo em Portugal. O corpo de oficiais passa a ter novas ideias políticas e a demonstrar um bom domínio das técnicas e conhecimentos militares, tornando-se incómodo para o Antigo Regime. Começam a ser comuns os conflitos entre e os novos oficiais e aqueles oficiais do Antigo Regime que, sendo nobres, ainda se mantiveram no Exército. O Tenente-coronel Guilherme Charters é um exemplo claro dessa clivagem ideológica. Outro exemplo é o do Sargento-mor Guilherme Novo (ou antes William Young) que montou um teatro independente em Leiria, promoveu discussões maçónicas... e foi depois preso e extraditado para Inglaterra.
A segunda grande mudança foi a do modelo económico. A estrutura económica anterior é muito abalada pela abertura dos portos ao comércio inglês, quebrando o quase monopólio da ligação ao Brasil, assegurado por empresas portuguesas ligadas ao Antigo Regime. A agricultura portuguesa procurou modernizar-se copiando ideias vindas de fora, como tentou o Tenente-coronel William Charters.
É quebrado o exclusivo da exportação dos produtos vindos do Brasil a partir de Portugal, por exemplo. Isto terá um impacto económico evidente. Nesta altura, a agricultura em Portugal continental configura-se como alternativa para a obtenção de bons rendimentos, desde que explorada de forma inteligente. Era preciso recuperar o país dando-lhe de comer, o que justificava ganhos capazes de levar ao ressurgimento de uma certa nobreza rural, a que os filhos do Tenente Coronel Guilherme Charters se associaram.
Ricardo Manuel Monteiro Charters d'Azevedo

sábado, 25 de outubro de 2008

UM OFICIAL INGLÊS EM LEIRIA -4

Os filhos de Guilherme Charters e de Ana Bárbara Soares Barbosa
O Tenente-coronel Guilherme Charters e Ana Bárbara Soares Barbosa tiveram 5 filhos: Roberto, Maria Isabel, Joana Tomásia, Bárbara Rita e Jerónimo. Refira-se que encontrámos os três filhos do Tenente-coronel Guilherme Charters que não morreram quando crianças (Roberto, Isabel e Bárbara) numa lista dos 40 maiores contribuintes do concelho de Leiria, muito graças aos casamentos que celebraram. Nomeadamente, o seu filho Roberto, após o seu casamento com uma viúva, já casada anteriormente duas vezes e com mais 38 anos que ele, foi deputado do Reino.
As outras duas filhas casaram com grandes proprietários do distrito, sendo um o José Maria Henriques d’Azevedo, das Cortes, futuro 1º Visconde de S. Sebastião e o outro com o abastado José Maria Crespo, da Marinha Grande.
Estes detalhes são importantes, pois confirmam que o Tenente-coronel Guilherme Charters se inseriu na sociedade local, tendo todos os seus descendentes casado muito bem levando a que socialmente a sua família tenha tido grande influência na cidade de Leiria. Talvez assim se percebam as suas atitudes no serviço militar, pois passaram a ser mais importantes para ele as actividades sociais e económicas, que as militares, agora que já tinha acabado a Guerra Peninsular e a confusão era grande no país com a guerra resultante da “zanga real”.

Os negócios do Tenente-coronel Guilherme Charters
Para além de militar, Guilherme Charters procurou desenvolver outros negócios. No seu dossiê, existente no Arquivo Histórico Militar, figura um documento sem data e com muita informalidade, pelo qual Guilherme Charters informa o Duque da Terceira da "grande inconveniência que está sofrendo pela falta de uns carpinteiros, pedreiros e ferreiros" para trabalhar na sua fazenda e "pede o favor dar baixa imediatamente a oito indivíduos" ingleses, cujos nomes se encontravam numa lista anexa. A relação incluía sargentos e praças que se encontravam (presos!) no Castelo de S. Jorge e no Convento de Xabregas, em Lisboa. Tal facto indicia que o documento seja da época da extinção das ordens religiosas (1834). Aliás, Guilherme Charters insiste no mesmo assunto em 9 de Outubro de 1834, num tom mais formal, afirmando que era "proprietário de uma considerável porção de terreno no termo de Leiria" e desejava "levar para ele alguns soldados ingleses (dos que ainda não tem baixa)", o que julgava razoável "visto a iminente vantagem que resultará a Portugal pela introdução do sistema de agricultura existente em Inglaterra". Por outro lado, argumentava também: "nada serve presentemente os ditos soldados a Portugal e a si mesmos".
Curiosamente, a 11 de Dezembro de 1834, 5 anos antes de falecer, Guilherme Charters faz sociedade com vários súbditos ingleses - os referidos soldados e alguns mais, num total de 33 - a quem arrenda algumas das suas terras. No entanto, parece que tal sociedade funcionou muito mal. No dossiê do Tenente-coronel Guilherme Charters existente no Arquivo Histórico Militar existem referências a "ingleses vivendo em Leiria da caridade pública".
O Tenente-coronel Guilherme Charters morre em Leiria no dia 25 de Novembro de 1839 com 56 anos. Pouco tempo antes, escreve um documento de nove páginas com as suas últimas vontades, que reflecte o pensamento de Guilherme Charters face à família, contendo passagens muito interessantes e pouco comuns em documentos do género.
Assim, Guilherme Charters começa por deixar claro que era súbdito britânico, tendo sido Major no seu exército, para além de Tenente-coronel no exército português. Depois, briosamente alude à sua condecoração com a Ordem da Torre e Espada, referindo o nome dos pais, da mulher, dos sogros e dos filhos que estavam vivos.
Guilherme Charters, neste documento, enfatiza a sua propriedade rural, especialmente as férteis lezírias a noroeste de Leiria (no eixo Moinhos da Barosa – Regueira de Pontes) na perspectiva talvez do rendimento agrícola.
Guilherme Charters não podia então imaginar que os casamentos dos seus três filhos ainda vivos iriam incrementar em definitivo a já boa situação económica da família. Porém, é evidente que William Charters preparou esse cenário antes de falecer. No parágrafo 10 das suas últimas vontades, lê-se:
"Se eu podesse ter a certeza que todos os meus sucessores seriam tão excellentes homens como he meu filho não faria testamento, se não declar-lhe [sic] meu único e universal herdeiro, porque sou certo que elle faria justamente o que lhe teria explicado ser minha vontade. Mas como isto é insufissiente e mesmo meu filho que he hoje tão excellente homem pode mudar para outras desgraças tenho resolvido deixar os meus bens de maneira seguinte:
Deixo o uso e fructo de tudo quanto possuo ou posso por qualquer via possuir ao meu filho Roberto Charters. Porém não pode entrar na administração de nada que he meu em quanto não tiver 25 annos completos de edade [por essa altura Roberto tinha 20 ou 21 anos, sendo o seu filho mais velho]; que tenha frequentado a Universidade por 4 annos ao menos e tenha sido approvado nos exames; que tenha hum razoavel conhecimento de Chimica e Botanica para poder ser bom lavrador e cultivar com vantagem e credito suas fazendas e que tenha estado dois annos em Inglaterra, ou por melhor dizer, na Grand Brittania e fallar e escrever a lingoa Ingleza como hum Inglez que elle he".
Como se pode verificar, Guilherme Charters pretendia que o seu único filho varão tivesse uma educação esmerada e completa, para que fosse um grande proprietário rural, capaz de rentabilizar as terras que ia herdar. Por outras palavras, Guilherme Charters projectava no filho aquilo que ele próprio desejou ser, procurando certificar-se de que o filho – ao contrário dele próprio – teria todas as condições para tal. Daí também a preocupação com um excelente domínio da língua inglesa, até porque Guilherme Charters via o filho Roberto como um inglês, mesmo que tenha nascido em Portugal.
Este parágrafo final, no qual se nota perfeitamente o português ainda não muito perfeito de William Charters, sugere-nos que a sua grande aspiração era erguer uma casa junto às suas lezírias, a qual seria para habitação, dado que ele refere a boa pedra calcária e a necessidade de ser bem mobilada. Se este anseio nada nos diz sobre o local onde Guilherme Charters residia à época, pelo menos sugere que, caso vivesse já na cidade (onde viria a falecer), tinha os seus principais interesses no campo. Porém, o seu filho Roberto estudou Direito (tendo-se formado a 23 de Julho de 1843 em Coimbra) e, apesar de ter sido também proprietário rural, tornou-se um homem mais urbano e mais cosmopolita que o pai, pois foi deputado.
Continua

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

UM OFICIAL INGLÊS EM LEIRIA -3

O casamento de William Chartres com Ana Bárbara Soares Barbosa.
William Chartres foi baptizado em Leiria, pelo rito católico, a 3 de Julho de 1815, de modo a poder casar-se no dia seguinte, na Sé Catedral de Leiria com Ana Bárbara Soares Barbosa tendo o padre grafado o seu nome como Guilherme Chartres. Ana Bárbara Soares Barbosa (1788 - 22 de Agosto de 1868) era filha do Dr. Luís Soares Barbosa, médico, e de Joana Tomásia de Ceia Fortes.
Com este casamento este oficial inglês consegue ligar-se a algumas famílias mais importantes de Leiria. Talvez por se sentir numa posição tão segura, económica e social, se poderá compreender que tenha começado a ter problemas no exército no ano em que se casa.
O sogro, o Dr. Luís Soares Barbosa era de Ansião e as suas outras 3 filhas foram casadas com homens ricos e influentes como abastado Conselheiro José de Faria Gomes de Oliveira, de que se dizia "De quem é Leiria? – Do Hospital e do Faria!", ou um lente de Medicina de Coimbra o Dr. Aureliano Pereira Frazão de Aguiar, ou ainda com André Lúcio Ferreira Simões que foi um dos poucos industriais de Leiria em meados do século XIX, tendo instalado uma fábrica de louça em algumas dependências do extinto Convento de S. Francisco, no ano de 1857.
Quanto à consorte do Dr. Luís Soares Barbosa - Joana Tomásia de Ceia Fortes era filha do médico Manuel de Matos, crismado na Pederneira a 2 de Setembro de 1732. Por sua vez, o Dr. Manuel de Matos era cunhado de José da Cunha Ceia. Cavaleiro professo da Ordem de Cristo, José da Cunha Ceia foi casado com Gabriela Inácia Pinto do Rego, sendo pai de Cristóvão da Cunha Pinto do Rego (que tomou o hábito da Ordem de Cristo em 1800) e do Capitão de Milícias Honorato da Cunha Pinto do Rego Ceia Trigueiros. Honorato da Cunha Pinto do Rego Ceia Trigueiros (falecido em 1828) foi o pai do Dr. Venâncio Pinto do Rego Ceia Trigueiros, Barão de Porto de Mós que por casamento foi proprietário da Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, e foi senhor dos antigos morgadios da Canoeira e da Ribeira da Azóia. Amigo dos irmãos Costa Cabral e membro da Maçonaria, o Dr. Venâncio Pinto do Rego Ceia Trigueiros envolveu-se activamente na política nacional, tendo sido Senador, passando a Par do Reino por Carta Régia de 1842. Foi ainda feito Fidalgo Cavaleiro da Casa Real em 1845 e Conselheiro e Presidente do Tribunal de Contas. O Barão de Porto de Mós foi um dos 40 maiores contribuintes do Concelho de Leiria em meados do século XIX.
O Dr. Luís Soares Barbosa, sogro do Tenente-coronel Guilherme Charters, estudou Medicina em Coimbra. Tomou capelo a 20 de Maio de 1767, tendo sido médico dos partidos da Câmara, Cabido e Hospital da Guarda e Castelo Branco. Foi sócio correspondente do Instituto Vacínico da Academia Real de Ciências e Professor Régio de Filosofia e publicou várias obras. A 1 de Agosto de 1785 o Dr. Luís Soares Barbosa é nomeado médico do partido de Leiria.
O Dr. Luís Soares Barbosa teve dois notáveis irmãos e consequentemente tios da mulher do Tenente-coronel William Chartres.
Um deles foi o Pe. António Soares Barbosa que nasceu em Ansião, Professor de Lógica no Colégio das Artes (Coimbra), professor de Lógica na Faculdade de Filosofia, Director da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e fundador e sócio da Academia Real das Ciências (em 1779). Deputado da Junta da Directoria Geral de Estudos em 1799. Precursor do Iluminismo em Portugal, contribuiu de forma significativa para a mudança de mentalidades que se operou no nosso país, na viragem do Antigo Regime para a Idade Contempo­rânea. Escreveu muitas obras, algumas delas publicadas em "Memórias" da Academia Real das Ciências.
O outro o Pe. Jerónimo Soares Barbosa, que nasceu igualmente em Ansião, professor de Retórica e Poética na Universidade de Coimbra, cargo que exerceu até à sua jubilação, em 1790. Em 1789 passou a ser sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. Filólogo, humanista e latinista, a sua principal obra foi a Gramática Filosófica da Língua Portuguesa, somente publicada seis anos após a sua morte e justamente considerada a mais completa exposição gramatical da língua portuguesa até então editada.
Vemos assim que este oficial inglês se integra, pelo seu casamento, na sociedade do distrito de Leiria, ficando ligado a várias famílias economicamente importantes.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

UM OFICIAL INGLÊS EM LEIRIA -2

Biografia militar de William Chartres
William Chartres assentou praça em 1803, num regimento escocês (quando Berwick-upon-Tweed pertencia à Escócia), entrando ao serviço do Exército Britânico no Regimento de Infantaria "26", chamado "the Cameronians" - Scottish Riffles, no posto de Alferes. Foi promovido a Tenente a 21 de Março de 1805.
O "26th Foot" esteve somente durante um curto período de tempo na Guerra Peninsular e deixou a Península Ibérica pouco depois da batalha da La Coruña, no início de 1809. Deve ter sido por essa data que William Chartres foi destacado no Exército Português (na 2ª Companhia de Granadeiros do Regimento de Infantaria n.º 11) participando na Guerra Peninsular de Maio de 1809 a 1812. William Chartres esteve nas batalhas de Roliça (17 de Agosto de 1808), La Coruña (16 de Janeiro de 1809), Buçaco (27 de Setembro de 1810), Albuera (16 de Maio de 1811) e Badajoz (6 de Abril de 1812). Aquele destacamento permitia-lhe ter o posto de oficial no exército britânico ao mesmo tempo que era graduado num posto acima no exército português, recebendo dos dois lados!
William Chartres, ou Charters, manteve-se ao serviço activo no Exército Britânico até Dezembro de 1816, data a partir da qual "passou a poder continuar somente ao serviço do Exército Português".
Na British Army List de 1817, William Chartres aparece na secção dos oficiais ao serviço dos exércitos portugueses e espanhóis, tendo passado a meio-soldo desde 25 de Dezembro de 1816. William Chartres continua a surgir na mesma situação em listas subsequentes. Somente na edição de 1826 das listas aparece na secção intitulada "Casualties since the last publication" na subsecção "Retirements and Resignations".
Na edição de 1835 é indicado como Major, com meio-soldo. De facto, William Chartres era Capitão quando iniciou a sua actividade no Exército Português, embora a 7 de Setembro de 1817 tenha sido promovido a Major no Exército Britânico. No Exército Português, foi Capitão agregado ao Regimento de Infantaria n.º 11, a partir de 16 de Agosto de 1809, passando a efectivo em 16 de Maio de 1810. Foi depois Capitão de Granadeiros da 2ª Companhia do mesmo Regimento em 11 de Fevereiro de 1811, Sargento-mor do Regimento de Infantaria n.º 22 (em Vila Real) e Tenente-coronel em 1819 (ao serviço no Regimento de Infantaria n.º 15, em Braga). Reformou-se, após 22 anos de serviço, com o posto de Tenente-coronel do Exército português por decreto de 26 de Janeiro de 1826, com um terço do soldo. Foi agraciado Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada a 9 de Outubro de 1834.
O Comandante do Regimento de Infantaria n.º 22 em Almeida (Coronel Manuel António Cardoso), na avaliação referente ao primeiro semestre de 1813, alude a William Chartres como "conhecedor dos Regulamentos e Ordens do Dia e capaz de manobrar bem o Regimento no campo, cumprindo com zelo os seus deveres militares, tendo uma boa conduta militar".
A sua saúde não estava muito bem nessa época. Para gozar das águas sulfurosas de Moledo, William Chartres obteve 20 dias de licença, que a Junta de Saúde de Lamego lhe concedeu em 13 de Julho de 1813.
Entretanto, a 1 de Julho de 1815, António de Lacerda Silveira, posterior Coronel Comandante do Regimento de Infantaria n.º 22, em Almeida, declarou que William Chartres tinha "boa disposição física e má saúde nos últimos tempos (teve sezões durante 33 dias e venéreas durante 62 dias) porém actualmente se restabeleceu e está capaz para todo o serviço".
Contudo, William Chartres era também visado negativamente nesse relatório de António de Lacerda Silveira, no item "conduta civil": encontra-se "mais moderado do que tenho dito em informações antecedentes por se ter abstido das bebidas espirituosas que davam motivo a que não tratasse bem os habitantes do país e mesmo alguns oficiais". Em outros pontos dos relatórios deste comandante, alude-se novamente à conduta militar: "é boa se se abstém das referidas bebidas, não desconhece as manobras e tem desejos pelo serviço". No item "aplicação a estudos", refere-se: "tem lido livros, não sei se militares, porém creio que a sua maior aplicação tem sido na história e romances". Mais adiante diz-se: "É aplicado ao serviço e tem bons desejos pela perfeição do Regimento, a que seria útil se conservasse sempre o mesmo senso". No seu juízo final, o comandante afirma que "este oficial se se soubesse sempre moderar, seria muito bom, porém facilmente perde a cabeça, ainda que beba pouco vinho, e não pode inteiramente abster-se dele e nesse estado é incómodo aos camaradas e habitantes do país, pelo mau modo com que os trata; espero contudo que continuando a moderar-se como lhe convém e ultimamente tem feito não deixe de ser útil no serviço".
Nos relatórios do segundo semestre de 1815, o Coronel António Lacerda Pinto da Silveira (Comandante do Regimento de Infantaria n.º 22) volta a referir o facto de William Chartres "gostar de bebidas espirituosas e de vinho" e, como consequência, "não tratar bem os habitantes do país e mesmo alguns oficiais". Apesar disso, tece-lhe elogios: "boa conduta militar, aplicado ao serviço, tem bons desejos pela perfeição do Regimento [...], não desconhece os Regulamentos e as Ordens do Dia e é capaz de manobrar com o Regimento no campo".
Como seria de supor, esta conduta militar de William Chartres, que surge somente após o seu casamento com uma senhora de uma família rica de Leiria, veio a criar-lhe problemas. Na informação semestral referente ao início de 1816, é indicado que William Chartres tinha tido 121 dias de prisão no ano anterior. Efectivamente, em finais de 1815 foi presente ao Conselho de Guerra. Foi também julgado a 23 de Fevereiro de 1820, tendo-lhe sido imposta, a 25 de Agosto desse ano, uma pena de 100 dias sem vencimento. No relatório do Coronel Comandante do Regimento diz-se que tudo sucedeu "por falta de respeito aos seus superiores, tendo atacado o Tenente-coronel inteiramente desarmado; tendo ele, Major, espada e pistola; desobedecendo às vozes de prisão que o Coronel comandante lhe deu".

Continua.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nada de novo!


UM OFICIAL INGLÊS EM LEIRIA -1

O Tenente-coronel William Charters.

Um dos oficiais britânicos que integrou o exército anglo-luso durante a Guerra Peninsular foi William Chartres (ou Charters). William Chartres nasceu em 1783 na cidade de Berwick-upon-Tweed, situada no estuário do rio Tweed, costa este da Inglaterra e da Escócia, facto que o torna em parte escocês, em parte inglês.
O Tenente-coronel William Chartres era filho de Robert Charters (ou Chartres) e de Barbara Middlemist (nascida a 8 de Março de 1757 em Coldstream - Roxburghshire), casados em Berwick-upon-Tweed a 7 de Setembro de 1776. Roberto Charters trabalhava em cobre e foi aprendiz na oficina do seu irmão, tendo depois sido admitido como mestre na Cooperação. Instalou-se por conta própria por volta de 1780, uns anos antes de William ter nascido.
William Chartres era neto paterno de um outro William Charters (que aparece igualmente com a grafia Chartres) e de sua mulher Margareth Middlemist, naturais de Duns, no Berwickshire. Era neto materno de Thomas Middlemist e de sua mulher Elisabeth Davison casados em Janeiro de 1750, naturais de Coldstream.
Nas listas de antiguidades da British Army, o oficial inglês aparece com o apelido "Chartres", mas, por exemplo no “Succession Register” do 26th Foot de 1813 aparece com o apelido de Charters e nos documentos do Exército Português (arquivados no Arquivo Histórico Militar) foi usado na maioria das vezes "Charters" em vez de "Chartres". No entanto, William Charters, em todos os requerimentos escritos pelo seu punho após o seu baptismo pelo rito católico em 1815, assina "Charters", adoptando igualmente "Guilherme" para seu primeiro nome. Nos registos paroquiais de seus filhos, a partir de 1815, já aparece com o apelido Charters. William Chartres teve 6 irmãos, todos mais novos, a excepção de um com o mesmo nome que ele e que morreu á nascença. A sua irmã, Elizabeth Chartres, casou-se em 11 de Julho de 1805 com Richard Shortney. Tiveram sete filhos: Barbara, Anne Maria, Margareth, Thomas, Elizabeth, Robert e Richard. Antes de 1824, toda esta família encontra-se já a residir em Regueira de Pontes (Leiria), supomos que por ter sido convidada a fixar-se na região de Leiria, pelo irmão e tio William Chartres (Sobre mais pormenores genealógicos ver:
Continua.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

William Charters por Ricardo Charters d’Azevedo.

Irei dar início à colocação de um texto realizado por Ricardo Manuel Monteiro Charters d'Azevedo, relativo a um seu antepassado, oficial de origem inglesa (William Charters) que prestou serviço como oficial do exército português e que acabou por escolher esta Pátria Portuguesa como a sua .
O texto será colocado em partes como vem sendo habitual neste blog.

O texto é um resumo adaptado do conteúdo de parte dos Cap. I e II do livro “Villa Portela – os Charters d’Azevedo em Leiria e as suas relações familiares (século XIX)de Francisco Queiroz, Ana Margarida Portela e Ricardo Charters d’Azevedo, Lisboa, Gradiva (http://www.gradiva.pt/), Novembro de 2007

Aqui fica uma pequena biografia do autor do texto.
Ricardo Manuel Monteiro Charters d'Azevedo nasceu em 1942 em Lisboa. Engenheiro electrotécnico pelo Instituto Superior Técnico, condecorado com o Grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, foi alto funcionário da Comissão Europeia e Director Geral no Ministério da Educação.
Docente de diversas cadeiras no domínio da Electrónica e das Telecomunicações no Instituto Superior Técnico e na Academia Militar, é autor e co-autor de diversos artigos e livros sobre a educação, formação profissional e as telecomunicações.
Agradeço antecipadamente o Engº Ricardo Charters d’Azevedo por esta preciosa colaboração.

domingo, 19 de outubro de 2008

Ordem do dia de 18 de Agosto de 1809.

«Quartel General de Salvaterra 18 de Agosto de 1809
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marechal Beresford me encarrega de fazer constar, que ele não pode deixar de se admirar muito de haverem os Senhores Oficiais mandado com a bagagem os Livros das Ordens, quando os devem trazer sempre consigo , para não lhes virem a faltar nas ocasiões , em que lhes são mais precisos ; e recomenda muito, que daqui em diante os Senhores Oficiais não separem jamais de si os seus Livros de Ordens.
Ajudante General Mozinho»
Digam ao Senhor Marechal que o autor deste blog nunca se separa dos dele.

sábado, 18 de outubro de 2008

Colecção das Ordens do Dia... e Compilação das Ordens do dia...

Só há poucos dias pude constatar, que existem, essencialmente, duas obras sobre as Ordens do dia, as quais pensava eu, serem a mesma obra.
A primeira, é a conhecida como
Colecção das Ordens do Diavariando o texto seguinte.

A outra, mais rara , com o título de Compilação das Ordens do dia do Quartel General do exercito português , concernentes á organização, disciplina e economia ,militares na campanha
São 6 pequenos volumes de bolso [ 1 por cada ano 1809, 1810, 1811, 1812, 1813 e 1814] , em papel extremamente leve, contendo as ordens do dia , nas quais foram retiradas todos os textos que não tenham a ver com “…organização, disciplina e economia ,militares …”.
A obra contem no fim de cada volume um apêndice com a legislação militar aplicavel ( designadamente os artigos de guerra de 1764), um resumo da força militar em cada ano e um índice por temas.

Trata-se de uma obra extraordinária.
Irei colocar dois posts sobre ambas as obras, as as imagens e descrição física das mesmas.

Compilação das Ordens do dia

Compilação das Ordens do dia do Quartel General do exercito português , concernentes á organização, disciplina e economia ,militares na campanha de 1809
[etc até 1814 ]
Lisboa, na impressão regia, anno 1811, acha-se na Loja da Impressão Regia, debaixo da arcada do Terreiro do Paço e na de Carvalho , aos Martyres .
Descrição física. 9 x 14,5

Colecção das Ordens do Dia do Ilustrissimo e Excelentissimo Senhor Guilherme Carr Beresford ...

São algumas as variantes desta obra, a qual contem vários volumes.
Aqui ficam alguns volumes da Colecção..:

Colecção das Ordens do Dia do Ilustrissimo e Excelentissimo Senhor Guilherme Carr Beresford , commmandante em chefe dos exércitos de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor
Anno 1809
Lisboa , por António Nunes dos Santos,
Vende-se na Rua- Nova do Almada nº44

Descrição física. 14 x 19,5


Colecção das Ordens do Dia do Ilustrissimo e Excelentissimo Senhor Guilherme Carr Beresford , commmandante em chefe dos exércitos de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor
Anno 1814
Lisboa , por Manoel Pedro de Lacerda,
Impressor do Quartel General , com Licença
Vende-se na Travessa de S.m Nicolao ao Pote das Almas , nº67.

Descrição física. 14 x 19,5

Colecção das Ordens do Dia do Ilustrissimo e Excelentissimo Senhor Marechal General , Marquez de Campo Maior, commmandante em chefe do exército de Sua Majestade Fidellíssima El Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve
Anno de 1820
Lisboa , por Manoel Pedro de Lacerda,
Impressor do Quartel General , com Licença
Vende-se na Calçada do Combro , nº55

Descrição física. 14 x 19,5

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Fora de contexto-O Último Duelo em Portugal.

Enquanto assistia à história do último duelo à morte na Escócia, entre Landale e Morgan, lembrei-me do último duelo à morte em Portugal, no qual participou um familiar.
O duelo, entre António Centeno (monárquico e capitalista) e António Beja da Silva (republicano, vereador e vice-presidente da CML) teve lugar no Campo Grande, alegando ambos os duelistas motivos de honra. Se a memória não me falha, António Beja da Silva, morreu de ataque cardíaco. António Centeno era um grande esgrimista, e já anteriormente participara em duelos .

Foto de um duelo à espada.

domingo, 12 de outubro de 2008

Há 200 anos. 12 a 21 de Outubro de 1808.

12 de Outubro -Decreto de criação no Rio de Janeiro de um Banco Nacional, com os respectivos estatutos.
13 de Outubro -As forças inglesas sob o comando do General David Baird começam a chegar a La Corunha, ficando estacionadas ao largo.
16 de Outubro - As autoridades chinesas pressionam o Governo de Macau para forçarem a saída das tropas inglesas daquele território.
21 de Outubro - Aviso do príncipe regente tornando obrigatória a circulação da pataca espanhola de prata pelo valor de 800 réis.
Iniciam-se os distúrbios entre chineses de Macau e as forças militares inglesas ali estacionadas.

Soldados armados da Legião, [Lisboa, 1806]


SOLDADOS ARMADOS DA LEGIAO Soldados armados da Legião [Visual gráfico. - [Lisboa : s.n., 1806]. - 1 gravura : buril, p&b ; 37x22 cm http://purl.pt/6104. - Data atribuída segundo o Plano de Uniformes de 19 de Maio de 1806 (cf. com M. P. -Uniformes de Caçadores : 1808 a 1910. Ms. BN E.A. 114 P.). - Farda da Legião Portuguesa sob o comando do Marquês de Alorna desde 1795CDU 355.1(469)"1806"(084.1)


Biblioteca Nacional.

sábado, 11 de outubro de 2008

Há 200 anos. 11 de Outubro de 1808.

O exército britânico comandado pelo general Moore começa a deslocar-se para Espanha. Todas as unidades estarão em movimento no dia 18, e Moore sairá de Lisboa em 26.
O general espanhol Blake reocupa Bilbao, enquanto as forças francesas sob o comando do general Merlin retiram.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Cavalerie da Novion, ou de Police à Lisbone.



MICHEL, H., fl. ca. 1800-1809 Cavalerie da Novion, ou de Police à Lisbone [Visual gráfico = Novion, or Lisbon Police Cavalry / H. Michel del. ; I. Clark sculp.. - London : J.Booth, 1809. - 1 gravura : água-tinta, aguarelada http://purl.pt/5219. - Dim. da comp. sem letra: 18,5x19 cmCDU 357(=469)"18"(084.1) 762(=1.410)"18"(084.1)


biblioteca nacional

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Filme : The Four Feathers - 2002.

«You may be lost, but not forgotten. Those who have journey far, to fight, for a land, know that the soldiers greatest comfort is to have is friends close at hand in the heat of battle, It ceases to be an idea for which we fight for the flag. Rather we fight for the man on our left, And we fight for the man on our right. When all the armies have scattered, And when all the empires fall away, All that remains is the memory of those precious moments We spent side by side.»
Tradução livre:
Podem estar perdidos, mas não esquecidos. Aqueles que viajaram longe para lutar em terras estranhas, sabem que o maior consolo do soldado é ter os amigos por perto. No calor da refrega, da batalha, nós deixamos de nos bater por um ideal ou por uma bandeira. Em vez disso, lutamos pelo homem à nossa esquerda, e lutamos pelo homem à nossa direita. Depois dos exércitos serem licenciados, depois da queda dos impérios, tudo o que resta é a lembrança daqueles instantes preciosos, passados lado a lado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Há 200 anos. 2 a 7 de Outubro de 1808.

2 de Outubro- A guarnição francesa da praça de Almeida depõe armas.
Retiram-se de Elvas as ultimas forças francesas.

4 de Outubro -Provisão proibindo a admissão a despacho de livros e papéis impressos sem licença da Mesa de Desembargo do Paço criada no Rio de Janeiro.

7 de Outubro -Para celebrar a expulsão dos franceses manda-se libertar grande número de presos que se encontravam nas cadeias dos distritos de Lisboa e Porto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 5 e última. Sérgio Veludo Coelho.

Continuação.
«O negociante Heinrich Anschutz ficaria obrigado a fornecer mensalmente 1250 espingardas completas, isentas de taxas de transportes e alfândegas ao serem carregadas no porto de Hamburgo com os respectivos custos de transportes a ficarem a cargo do negociante alemão. No documento era referido que os canos das espingardas, apesar de já virem provados de Suhl, conforme os regulamentos, seriam de novos analisados no Real Arsenal do Exército, através do processo de disparo de uma bala de chumbo do calibre da arma e uma carga de pólvora de guerra do peso da bala. Os canos gastos ou danificados seriam substituídos por outros à responsabilidade da Heinrich Anschutz Companie, que poderia nomear quem for necessário para assistir às provas em Lisboa. O pagamento seria feito mediante a entrega dos lotes de 1250 espingardas, o que incluía um adiantamento do pagamento das primeiras 1250 armas, no valor de 7750 Risedaller e que corresponderiam ao último pagamento do contracto, este que deveria chegar a um valor total de 186000 Risedaller de prata. Os pagamentos seriam feitos em Hamburgo, ao ritmo de entrega dos lotes das espingardas e nos casos em que a quantidade de armas ultrapassasse o lote, seria feito o acerto de contas por inteiro, tarefa a cargo de banqueiros alemães, comissionados pelo Governo português. O negociante Heinrich Anschutz, no final do documento, declarava que garantia, pelos seus bens, de que cumpriria todas as obrigações do contrato (AHM DIV 1-13-14-23 m0001/2/3). Carlos António Napion, Inspector do Arsenal Real do Exército, em ofício de 24 de Março de 1803, escrevia para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Conde de Linhares e Presidente do Real Erário, sobre os resultados da negociação para a aquisição das 30 000 espingardas ao negociante Heinrich Anschutz, e em que se fazia menção a um relatório em anexo, e datado de 18 de Janeiro de 1803, este referindo-se a ordens de pagamento dadas a João Schuback, um dos banqueiros comissionados em Hamburgo, do que seriam os primeiros lotes de espingardas a serem enviados para Portugal a partir daquele porto. No documento em anexo ao ofício, Napion dava conta da troca de correspondência com o agente financeiro de Hamburgo, João Schuback, relativa aos pagamentos do armamento a ser enviado para Portugal e sobre quais as melhores moedas a serem utilizadas em alternativa ao Risedaller, constante no contrato celebrado com a Heinrich Anschutz Companie, pelo que aparenta ser uma questão de câmbios. Para além das questões monetárias, foram apontados problemas com o fabrico das armas, nomeadamente o exagerado tamanho das platinas onde assentavam as fecharias de pederneira das espingardas e as guarnições, mais espessas do que nos modelos ingleses, o que significava o não cumprimento do contrato de fabrico, que se comprometia a respeitar em termos de dimensões e calibre o que fora solicitado no ano de 1802 (AHM Div 1–13–02 –13 m0053/55).«

Sérgio Veludo Coelho.

Fim.

domingo, 5 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 4 . Sérgio Veludo Coelho.

Continuação.
«O fabrico e prova dos canos, de ferro, na Fundição de Baixo e em Stª Clara, era levado a cabo pelos espingardeiros, designados de lima, forja e malho e sobre o seu trabalho pendia a responsabilidade de produzirem canos de qualidade para as armas de fogo, tendo em conta que cada cano teria que ser testado de forma a avaliar a sua resistência ao uso prolongado a às duras condições de combate. Aos espingardeiros era também atribuída a responsabilidade de testar canos importados do estrangeiros, ou mesmo as armas completas, com o objectivo de comprovar a fiabilidade dos materiais e a qualidade de construção do armamento. Os canos provados eram obrigatoriamente puncionados com a marca do Arsenal para comprovar que estavam aptos a ser montados nas coronhas e aplicadas as guarnições e fecharias. As armas ficavam completas com a aplicação das bandoleiras de couro e a atribuição das respectivas baionetas e bainhas. As coronhas das armas, tanto espingardas, carabinas e pistolas eram feitas pelos coronheiros, que tal como os espingardeiros eram ofícios que também se encontravam representados nas próprias unidades militares que contavam com este tipo de artífices para a manutenção regimental do armamento. Apesar do extenso número de mestres espingardeiros no Arsenal Real do Exército, alguma documentação do Arquivo Histórico Militar demonstra que as dependências do Arsenal responsáveis pelo armamento ligeiro não possuiriam capacidade para fabricar e prover a totalidade dos efectivos das tropas de 1ª linha, as milícias e as ordenanças. Tal pode ser demonstrado pela análise de um contrato de aquisição de armas a um fabricante alemão da zona da Turíngia transcrito num documento, de 11 de Setembro de 1802, e relativo à aquisição de 30000 espingardas ao fabricante Heinrich Anschutz Companie, de Suhl, no Henneberg, naquilo que viria a ser um longo processo com vários intervenientes, entre os quais o legado português em Berlim, Silvestre Pinheiro Ferreira, que actuava sob as ordens de António Araújo de Azevedo, Conde da Barca e Ministro do Princípe Regente D. João. Uma comissão ao serviço do Príncipe Regente, entregue ao já referido negociante de armas Heinrich Anschutz ficaria autorizada para a aquisição de espingardas para uso Exército Português, ao preço de 6 Risedaller e 20 Groschen cada uma. As espingardas seriam de calibre e proporções semelhantes aos modelos ingleses, à excepção das baionetas que conservando o peso da congénere britânica, seriam mais longas algumas polegadas (não especificadas no texto). Cada espingarda seria acompanhada por um sacatrapos e cada centena de espingardas traria um molde para fundir 12 balas em simultâneo. »
Continua.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 3 . Sérgio Veludo Coelho.

Continuação
«Para além do material de guerra o Arsenal fabricava ou coordenava o fabrico de todo o equipamento que caracterizava o soldado da época, uniformes, botões, barretinas, bonés, capacetes, polainas, sapatos, botas, roupa interior, suspensórios, cintos, talabartes, boldriés, patronas, bainhas de espada e baioneta, tendas, selas, xabraques, materiais de madeira, ferro, bronze e latão e todo uma ampla variedade de produtos transformados que chegavam às muitas oficinas do Arsenal, vindos de outras fábricas do país, como os laníficios das Beiras e Alentejo, sobretudo com os contratos firmados com os produtores de laníficios da Covilhã, Fundão e Portalegre. Na prática o Arsenal Real do Exército era uma das maiores unidades militares do país, que embora com uma maioria dos já referidos empregados civis, viria a ter uma unidade própria que era a Companhia de Artífices do Arsenal Real do Exército criada em 1803, mas que surgem com os seus uniformes definitivos no Plano de Uniformes de 19 de Maio de 1806. Foi esta Companhia criada pelo Decreto de 7 de Agosto de 1803 para ser integrada no Arsenal Real do Exército, com o intuito de organizar ou reunir as Companhias de Artífices dos quatro antigos Regimentos de Artilharia e que por regra geral se encontravam destacados no Arsenal, tendo essas companhias sido extintas precisamente no ano da criação da Companhia de Artífices do Arsenal Real do Exército. Foram escolhidos para comporem a Companhia setenta e cinco Soldados com as profissões de: ferreiro, forjador, oficiais de lima, carpinteiro de machado e de obra branca, segeiro, funileiro, torneiro de madeira, tanoeiro, etc. Para além dos setenta e cinco soldados Artífices, também eram Artífices todos os Sargentos com excepção para o Furriel. Tal não implica que este contingente fosse uma força de segurança operacional pois num ofício de Carlos António Napion, de 6 de Agosto de 1807, é referido o facto de o Arsenal Real do Exército se achar dividido em muitos edifícios e cada um deles ter pelo menos mais do duas portas, por onde tinham acesso os operários, os materiais e os géneros consumidos na produção e em que fazia reparo de que esses acessos não se achavam devidamente guarnecidos, dado a natureza do que lá se fabricava e trabalhava. Apesar de mencionar a presença de porteiros, Napion realçava da necessidade de colocar militares no controlo dos acessos para garantir a segurança das áreas. Na prática o que este ofício deixa transparecer é que os edifícios do Arsenal Real do Exército não tinham controlo de entradas e saídas, sem escalas de serviços das guardas, tais como nas unidades militares e assim o que Napion sugeria era que se estabelecesse uma guarda semelhante aos dos quartéis dos Regimentos de Linha, com oficiais de dia e guarda armada (AHM Div 1–13–02–13 m0049/51). »
continua.

O arsenal do Exército . Tabela 5 de 5.

[Tabela 5 de 5]
Contadoria dos Arsenais Reais do Exército, 12 de Dezembro de 1803
Joaquim Zeferino Teixeira
Fonte: AHM-DIV-1-13-19-01_m0004/17»


Continua

O arsenal do Exército . Tabela 4 de 5

[Tabela 4 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Tabela 3 de 5

[Tabela 3 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Tabela 2 de 5

[Tabela 2 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Parte 2 . Sérgio Veludo Coelho.


Devido à extensão da tabela referente a este post, serão colocadas 5 posts com as imagens do mesmo, que na sua totalidade serão a tabela existente trabalho.
*

* *

Continuação.

«O primeiro mapa, relativo ao mês de Dezembro de 1803, num período intermédio entre a campanha de 1801 e a primeira invasão francesa, no ano de 1807, descreve a produção de materiais de guerra e equipamentos nas dezoito oficinas do Arsenal que aqui são citadas, mobilizando um total de 1584 homens das várias classes profissionais.

Rellação das obras e mais géneros que sahiram das officinas deste Arsenal do Exército no mês de Novembro próximo passado, as quais foram recebidas pelo Almoxarife Vitorino António de Sequeira, a quem se carregarão em receita no mês de Dezembro de 1803.



Ver tabela supra.

[Tabela 1 de 5]

Continua

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 1 . Sérgio Veludo Coelho.

LEGRAND, Charles, fl. entre 1839 e 1847 Arsenal do Exército em Lisboa [Visual gráfico / Legrand. - [S.l. : s.n., ca. 1842] ([Lisboa] : Off. Lith de M. e l Luiz. - 1 gravura : litografia, p&b ; 14,6x22,7 cm (esquadria). - Data baseada no período de actividade do autorCDU 725.18(469.411.16)Arsenal do Exército(084.1) 763(=1:469)"18"(084.1)

Hoje damos inicio ao primeiro texto de Sergio Veludo Coelho sobre o arsenal do exército.


O arsenal do exército - Parte 1.


Por determinação do conde de Lippe, pelo Alvará Régio de 24 de Março de 1764, a Tenência passou a denominar-se por Real Arsenal do Exército. Em 1791, o Alvará Régio de 21 de Outubro estabeleceu um regulamento pelo qual se deveriam reger os Arsenais Reais do Exército e Intendência Geral da Fundição de Artilharia e Laboratórios de Instrumentos Bélicos, sob a inspecção da Junta da Fazenda dos Três Estados. A principal repartição do Arsenal do exército situava-se no edifício da extinta Tenência, a antiga Fundição de Baixo. Mas este edifício também continuou a funcionar como depósito de peças de artilharia, espingardas e outras armas de fogo e brancas. As instalações do arsenal do exército não se encontravam num único edifício mas estavam compreendidas em várias dependências. Apesar disso o Arsenal Real do Exército, em Lisboa, entre os finais do século XVIII e no início do século XIX, não deixava de ser um pólo industrial de importância estratégica para a defesa nacional, sobretudo face aos desafios que teve de enfrentar e que resultaram das várias campanhas militares que foram consequência da intervenção militar portuguesa no Roussillon, a Guerra das Laranjas em 1801 e todo o período da Guerra Peninsular, entre 1807 e 1814. Nas infra estruturas do Arsenal de Lisboa destacavam-se quatro estabelecimentos principais que eram as instalações da Fundição de Baixo, o Parque de Stª Clara e respectiva Fábrica de Armas, a Fundição de Baixo e o Laboratório de Stª Apolónia. A maior parte dos operários do Arsenal eram civis e com os mais diversos ofícios. O armamento, equipamento, fardamento e outros materiais de guerra e de campanha eram exigentes em termos de fabrico, provas e manutenção e envolviam uma extensa variedade de ofícios que se podem observar nos extensos mapas abaixo transcritos, dizendo apenas respeito ao estabelecimento de Lisboa, com relações de materiais produzidos nas respectivas oficinas e a listagem dos trabalhadores.»
Continua.

Sérgio Veludo Coelho.

Agradecendo antecipadamente, venho informar que darei entrada no blog de novas imagens e alguns trabalhos deste autor, já conhecido dos amantes da época.
Entre eles, será publicado em partes um texto com o título.
Uniformologia Militar Portuguesa -1806-1892 -O Jogo das Regras e Excepções.
e outro sobre O arsenal do exército, tema em que está neste momento a trabalhar e cujo resultado esperamos ansiosos.
Ao Sérgio Veludo Coelho o meu obrigado.

Military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro


FADEN, William, 1749-1836 A military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro occupied by the British Army under the command of Lieutenant General Viscounte Wellington [Material cartográfico] / Published with permission of the Quarter Master General by W. Faden Geographer to his Magestaty & to his Royal Highnefs the Prince of Wales. - Escala [ca. 1:95000], 8 British Miles [legais] = [13,50 cm]. - [Londres], Sharing Cross : W. Faden, 1810. - 1 mapa : gravura, aguarelado, color. ; 58,30x46,70 cm, em folha de 68,00x53,20 cm http://purl.pt/3437. - Apresenta duas cotas antigas inscritas no verso: CC 658 e I - 22 PTBNP: C.C. 284 A.CDU 355.4(469:44)(084.3) 912"18"(084.3) 914.69(084.3)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A vedoria.

Uma boa notícia.
Muita gente em Lagos [ e claro, fora de Lagos] estranha o nome da Rua da Vedoria, onde se localizava a Alfandega.
O que é isso da Vedoria?
Quem era o Vedor?

Pois, Jorge Penim de Freitas irá dedicar um conjunto de posts sobre o tema.
O primeiro post " O vedor geral do exército" pode ser lido AQUI.
Outro texto sobre a Vedoria poderá ser consultado na pagína [ O exercito Português em finais do antigo regime] de Manuel do Amaral , AQUI .