Mostrar mensagens com a etiqueta Dmitri Seniavin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dmitri Seniavin. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de setembro de 2008

Dmitri Seniavin e a esquadra Russa doTejo. Parte 4

Post 4
"Após a derrota das tropas francesas em Vimieiro, a 9 de Agosto de 1808, Junot vê-se obrigado a abandonar Portugal e o almirante Seniavin, que já tinha estabelecido contactos com o comando da armada inglesa que bloqueava Lisboa em meados de Julho, tentou agora fazer tudo para que a sua armada não fosse apreendida pelas autoridades de Londres, pois a Rússia e a Inglaterra continuavam formalmente em estado de guerra. Argumentando a sua posição numa carta dirigida ao almirante inglês Cotton, Seniavin escreve: “O meu comportamento durante os dez meses de permanência em Lisboa, as minhas recusas constantes de participar mesmo que da forma mais mínima nas medidas hostis que me eram propostas [contra os ingleses]... todos esses motivos convencem-me firmemente que Vossa Excelência terá em atenção as circunstâncias acima assinaladas e que a situação neutra legal seja observada em relação à minha esquadra, enquanto ele estiver no rio Tejo”. A armada russa acabou por ser conduzida para o porto inglês de Portsmouth e, em 1809, os oficiais e marinheiros russos regressaram ao seu país, deixando os navios em Inglaterra, tal como exigiram as autoridades de Londres. E não obstante o Governo de Londres ter, em 1812, devolvido alguns dos navios e pago por aqueles que ficaram em Inglaterra, o czar russo acusou o almirante de ter “entregue” a esquadra ao “inimigo”. Caído em desgraça, o almirante Seniavin, em 1820, vê-se obrigado a dar explicações às autoridades sobre os boatos de que ele pertenceria a uma “sociedade secreta”. Em Novembro desse mesmo ano, Dmitri Seniavin vai a casa do ministro do Interior da Rússia, Victor Kotchubei, para esclarecer a situação. O ministro respondeu que “não esconde do almirante” que ouviu falar dessa sociedade, mas que não acusava Seniavin, pois estava convencido que “não podia imaginar que semelhante iniciativa tonta, vil e hedionda pudesse caber na cabeça de um nobre russo”. Não foram até hoje encontrados documentos que provem que Dmitri Seniavin tenha sido membro de alguma sociedade secreta ou tenha tido contacto com os dezembristas, mas há vários testemunhos que mostram que alguns dos revoltosos pensaram no seu nome para dirigir a Rússia depois do êxito da revolta. O nome do almirante foi várias vezes citado durante os interrogatórios a que os dezembristas foram sujeitos na prisão. Piotr Pestel, um dos dirigentes da revolta de Dezembro de 1825, declarou à Comissão de Investigação: “Bestujev-Riumin, depois de se encontrar em Kiev com o príncipe Trubetskoi e o coronel Briguin, veio depois ter comigo a Lintsi e disse-me que ele soube, através de Trubetskoi e Briguin, da intenção da Sociedade do Norte nomear os almirantes Mordvinov e Seniavin membros do governo provisório”. “No que respeita à nomeação pela Sociedade do Norte dos almirantes Mordvinov e Seniavin para o governo provisório, posso afirmar que o príncipe S. Trubetskoi era da mesma opinião, mas não sei se todos os membros da Sociedade do Norte a partilhavam” – declarou Serguei Muraviov-Apostol no interrogatório". (Fim)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Dmitri Seniavin e a esquadra Russa doTejo. Parte 3


«Dmitri Seniavin responde imediatamente, começando por sublinhar que ele compreende muito bem o seu dever, que consiste em cumprir à risca as ordens de Napoleão, mas arranja nova argumentação para evitar isso. Desta vez, o almirante russo alega que, caso ele desembarcasse na margem esquerda do Tejo, teria de combater não só contra os ingleses, mas também contra os insurrectos portugueses, coisa de que não tinha sido incumbido. Além disso, considerava que era mais útil para os monarcas francês e russo não atacar a esquadra inglesa, mas continuar no mesmo lugar. Junot ficava cada vez mais furioso e, a 26 de Julho, foi visitar Seniavin ao navio “Tverdii” (“Firme”) para tentar uma vez mais convencê-lo, mas em vão. Dois dias depois, escreve uma nova carta: “Senhor almirante, visto que a situação em que encontro se torna dia a dia cada vez mais complicada, considero ser meu dever e uma questão de minha honra conhecer positivamente as vossas intenções e saber se posso esperar receber de Vossa Excelência alguma ajuda. Este é o meu dever, visto que o Imperador, o meu Senhor, considera que significativa esquadra que o Imperador russo colocou à sua disposição deve, obrigatoriamente, em circunstâncias tão críticas, ajudar com todos os meios o seu exército terrestre, tal como o exèrcito terrestre deve ajudar a esquadra”. Na mesma missiva, Junot passa para o campo das ameaças: “É necessário que o meu Senhor e o vosso saibam que a esquadra russa não desejou prestar-me a mínima ajuda. É preciso que os militares, que irão analisar a minha situação, saibam que eu não estive apenas cercado por todos os lados de inimigos, mas que a esquadra aliada da França, que se encontra em guerra contra Inglaterra, se declarou neutra no momento mais decisivo perante a esquadra inimiga e no momento do desembarque substancial de tropas inglesas, e que o seu comportamento foi para mim mais prejudicial do que se ela estivesse contra mim”. A ira do general Junot é tão grande que começa a referir-se a Seniavin, na mesma carta, na terceira pessoa: “Se o senhor almirante Seniavin se encontra realmente em estado de guerra com os ingleses, como pode ele pensar um só momento que a sua armada não cairá nas mãos deles caso tomem Lisboa? Se o senhor almirante Seniavin tem algum acordo com o almirante inglês, se ele recebeu de alguma forte garantias para a sua armada, será que a honra lhe permitirá abandonar o aliado sem aviso?”. O almirante russo respondeu à missiva no mesmo dia, reafirmando a sua obediência a Napoleão e negando qualquer acordo com os ingleses. Porém, continua a considerar que é inútil fazer desembarcar os seus homens não só porque são menos de mil, mas também porque os russos não compreendem português!"

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dmitri Seniavin e a esquadra Russa doTejo. Parte 2



"As relações entre Seniavin e Junot tornavam-se cada vez mais tensas, pois os franceses necessitavam de mostrar à Europa a solidez da aliança russo-francesa. Tanto mais num momento em que a guerra popular contra Napoleão em Espanha tomava formas cada vez mais abertas e a Áustria se armava. A entrada em acção da armada russa ancorada em Lisboa contra os ingleses seria um sinal para todos aqueles que consideravam a aliança russo-francesa uma utopia. Mas o comandante russo não estava disposto a sacrificar a vida dos seus homens e os seus navios em nome da defesa dos interesses franceses em Portugal e, por isso, recorre a um subterfúgio para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o cumprimento das ordens de Napoleão: alega falta de armamentos e homens. Tendo recebido um relatório enviado por Dmitri Seniavin, datado de 21 de Abril de 1808, Napoleão dá-lhe algumas ordens: estar pronto para sair para o mar a qualquer momento e, para isso, “manter a tripulação em estado de alerta”. E vendo que o navio “São Rafael” não se encontrava devidamente equipado, o Imperador francês ordenou ao almirante russo que contactasse Junot para que este recrutasse marinheiros suecos e outros que se encontravam em Lisboa. Além disso, se faltassem munições, pólvora ou quaisquer outros materiais, deveria conseguir tudo isso em Lisboa. Mas o oficial russo consegue, sob os mais variados pretextos, manter a neutralidade, explicando a sua posição numa missiva enviada ao czarAlexandre I: “Uns dias antes de me encontrar com o duque [Junot], recebi informação segura de que a Espanha se fez inimiga clara da França e as armas espanholas tinham vencido em várias ocasiões, ao mesmo tempo que as províncias setentrionais de Portugal começaram a fugir do poder dos franceses... e a mais insistente exigência do duque para o reforçar com soldados convenceu-me da situação fraca das tropas francesas em Portugal. Eu, encontrando-me em situação tão difícil, considerei: se tomar o lado dos franceses e assim me ver claramente envolvido em medidas hostis contra os portugueses, ingleses e espanhóis, ficarei sem qualquer meio para salvar a esquadra de Vossa Alteza Imperial do poder desses povos unidos...” Junot passa dos pedidos pessoais para as exigências formais a fim de obrigar Seniavin a cumprir as ordens vindas de Paris e São Petersburgo. A 3 de Julho de 1808, o general francês escreve ao oficial russo: “Senhor almirante, nas difíceis circunstâncias em que me encontro e que advêm nomeadamente da necessidade de defender a esquadra de Sua Alteza, o Imperador Russo, eu penso que o nosso dever comum, bem como o interesse dos nossos senhores, consiste em chegar a um acordo sobre os meios possíveis de ajuda mútua”. O objectivo era conseguir fazer com que Seniavin desembarcasse com as suas tropas na margem esquerda do Tejo para defendê-la dos ingleses: “o efeito colossal dessa medida seria incalculável”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Dmitri Seniavin e a esquadra Russa doTejo. Parte 1

Quadro de Aleksey Bogolyubov (1824-96). Frota Russa a pós a Batalha de Athos.19 Junho de 1807.


Transcrevo este excelente texto que se encontra no Blog “ Da Rússia” de Jose Milhazes, que pode ser visto [aqui ].
Trata-se de um texto excelente a não perder, pelo que aqui vai .

Post 1


O almirante russo amigo dos portugueses

Em 2007 e 2008, celebram-se os 200 anos da luta dos portugueses contra as tropas napoleónicas que invadiram Portugal. Ao escrever a minha tese de doutoramento, deparei com a história do almirante russo Dmitri Seniavin e a sua aventura no porto de Lisboa durante as invasões francesas. Publico aqui, por capítulos, este facto curioso para dar a conhecer aos meus leitores o nome e a obra de um dos maiores almirantes russos.

"Em 3 de Novembro de 1807, a esquadra do almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte tempestade no mar, mas ficou aí retida durante quase um ano devido à tempestuosa situação internacional.
A 7 de Julho desse ano, a Rússia e a França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade em Tilzit e a Corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. A 17 de Novembro, depois da fuga da família real portuguesa para o Brasil e da ocupação do país pelas tropas francesas, a armada inglesa fechou a barra do Tejo não só aos navios franceses, mas também aos dos aliados de Paris.
O almirante Seniavin viu-se numa situação muito complicada. Por um lado, não podia deixar de cumprir as ordens do czar Alexandre I, mas, por outro lado, as suas simpatias estavam do lado dos ingleses e portugueses.
O almirante Seniavin, porém,conseguiu cumprir essa difícil tarefa. Ele compreendeu rapidamente que o general Junot, que havia ocupado Portugal, iria tentar de todas as formas cumprir a vontade de Napoleão, ou seja, provocar a guerra entre a Rússia e Inglaterra pelas mãos do comandante da esquadra russa.
Mas o facto é que, não obstante o corte de relações com Londres, o czar Alexandre não pretendia na realidade entrar em conflito aberto com os ingleses.
Dmitri Seniavin escreveu ao seu comandante supremo depois do primeiro encontro com Junot: “Consegui compreender de algumas palavras por ele ditas que o governo francês não quer perder a oportunidade que lhe dá a permanência da esquadra de Vossa Alteza aqui, para aumentar as dúvidas do governo inglês sobre as intenções de Vossa Majestade Imperial, e numerosos dos oficiais navais franceses que se encontram aqui dizem abertamente que serão nomeados para a esquadra que me foi confiada para o lugar dos oficiais de origem inglesa”.
Alexandre I tarda em enviar instruções, mas Seniavin continua a sua política de evitar o envolvimento dos seus barcos e homens no confronto anglo-francês, o que irrita fortemente o imperador gaulês.
Napoleão tenta fazer com que o almirante deixe de receber ordens de São Petersburgo e passe a cumprir ordens do conde Tolstoi, embaixador russo em Paris, que funcionaria como uma “correia de transmissão” sua.
“A esquadra do almirante Seniavin chegou a Lisboa – escrevia Napoleão a Alexandre a 7 de Dezembro de 1807 – Felizmente, as minhas tropas já se devem encontrar lá. Seria bom se Vossa Alteza incumbisse o conde Tolstoi de ter poder sobre essa esquadra e sobre as suas tropas, para que, em caso de necessidade, possam ser utilizadas sem esperar ordens directas de Petersburgo. Penso também que este poder directo do embaixador de Vossa Alteza teria boa influência no sentido em que poria fim à desconfiança que por vezes revelam os comandantes face aos sentimentos de França”.
A pressão sobre o almirante Seniavin aumenta através da instrução da Corte Russa, enviada no início de 1808, recebida por Andrei Dubatchevski, representante diplomático russo em Lisboa, e dirigida a todos os militares russos: “Em relação ao governo que irá existir em Portugal, é necessário que os vossos actos correspondam em tudo à disposição amiga actualmente existente entre a Rússia e a França”.
E, por fim, a 1 de Março do mesmo ano, Alexandre I envia uma ordem aos três comandantes de armadas russas que se encontravam no estrangeiro, entre as quais estava a comandada por Seniavin: “Reconhecendo como útil para o êxito da causa comum e para que seja feito o maior prejuízo ao inimigo colocar as nossas forças navais que se encontram fora da Rússia à disposição de Sua Alteza, o Imperador dos Franceses, ordeno-vos que, em conformidade com isso... o cumprimento indiscutivelmente mais preciso de todas as ordens que vos forem dadas por Sua Alteza, o Imperador Napoleão”.»
( Continua)