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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uniformologia Militar Portuguesa.4

Imagem biblioteca nacional
[Militar] [Visual gráfico. - [S.l. : s.n., ca. 185-?]. - 1 gravura : água-forte, color. a guache ; 32x23 cm http://purl.pt/1082. - Data atribuída segundo características formais CDU 355.1(469)"18"(084.1) 762(=1.469)"18"(084.1)


Capítulo 4. O período romântico e o triunfo liberal.



O ideário liberal trouxe novas influências à sociedade portuguesa, incluindo o Exército e, sem dúvida os seus uniformes. A aparência discreta do soldado português, em tons de azul ou castanho, foi progressivamente enriquecida com novos recortes e adornos, típicos do período romântico, sendo o plano de uniformes de 1834 o corolário destas novas tendências. Novos fardamentos, com casacas de dupla fileira de botões, mais justas ao corpo mas mais desconfortáveis, são as primeiras alterações a ser perceptíveis na iconografia que acompanhava aquele plano de uniformes, assim como a velha barretina cilíndrica, herdada dos ingleses, que foi substituída pelo novo, ornado e pesado modelo de topo de sino, de marcadas influências prussiana e francesa. Também outros adornos se tornaram mais exuberantes, como as dragonas e charlateiras, nomeadamente as dos oficiais e da cavalaria, numa profusão de canotões de fios dourados e franjas com as cores regimentais. A cavalaria, anteriormente confinada a uma aplicação táctica indefinida, foi, a partir de 1834, dividida em regimentos de cavalaria ligeira, respectivamente seis regimentos de caçadores a cavalo e dois regimentos de lanceiros. Estes últimos foram uniformizados ao melhor estilo europeu, com jaqueta curta e cintada e com a barretina de topo rectangular, característica deste tipo de tropas, denominada de Schapska, com a sua origem nos regimentos de lanceiros polacos do período napoleónico.
A artilharia também sofreu algumas alterações, tanto na aplicação táctica como nos próprios uniformes, que passaram a distinguir a artilharia de campanha, montada e a artilharia de posição ou de sítio. Mantendo as tradicionais cores e os atributos regimentais da Arma, o encarnado e as peças cruzadas que ornavam as chapas das barretinas, golas e virados das abas das casacas, os artilheiros montados passariam a usar uniformes e armas individuais similares aos da cavalaria, o que incluía sabres, pistolas e carabinas. A farda tinha abas posteriores curtas e rematava-se com um cinto de lã à cavaleiro em vez do talabarte com patrona enquanto os artilheiros a cavalo usavam boldrié com canana, com gancho para carabina. Os artilheiros apeados equipavam-se de maneira semelhante à infantaria, com casacas de abas longas, correames cruzados, com patrona e porta baionetas e eram armados com mosquetes longos de pederneira, do modelo distribuído às Armas apeadas, geralmente Brown Bess inglesas, substituindo-se a baioneta regulamentar de infantaria pelo terçado, espécie de espada curta, característica da Artilharia.
Este plano de uniformes de 1834 significou um relativo romper estilístico com todo um sistema uniformológico que perdurava desde o plano de 1806, assim como acompanhou e reflectiu paralelamente a introdução de novos conceitos tácticos, nomeadamente na cavalaria e na artilharia. É de notar que a maioria dos oficiais do novo exército liberal que saiu da Guerra Civil de 1832-1834 haviam estado emigrados na França e na Inglaterra, onde absorveram as modas militares do período romântico, contrariamente aos quadros de comando das velhas estruturas absolutistas, assumidamente tradicionalistas e impermeáveis às influências externas, atitude que lhes poderá ter provocado a derrota no campo de batalha.
Afastada, aparentemente, a ameaça do absolutismo miguelista, confrontaram-se as facções liberais, divididas entre a esquerda dura dos seguidores da Constituição de 1820 e a direita cartista, defensora da Carta Constitucional, que tinha origem na que havia sido outorgada por D. Pedro, em 1826. No meio, deambulavam os Setembristas (Golpe de Setembro de 1836), constitucionalistas moderados, que no golpe de Fevereiro de 1842 haviam sido afastados do poder por Costa Cabral (Bebiano, 1993, p. 260 - 261).
O exército regular continuava politizado e instável, dividido em várias facções, e era secundado na instabilidade política por inúmeros batalhões de voluntários, herdeiros das antigas milícias e ordenanças. Contudo, o carácter rural destas fora substituído pela componente profundamente burguesa dos referidos batalhões da Guarda Nacional e de voluntários. Estes batalhões, de grande utilidade na guerra civil de 1832-1834, tornaram-se em contingentes de duvidoso valor militar, por vezes pretexto para uma certa burguesia envergar um uniforme, de preferência vistoso, e para exibir um mosquete e uma baioneta pelas ruas. E à semelhança de algumas dessas guardas, também elas perdiam muitas vezes o entusiasmo quando enfrentadas por tropas regulares, não restando outra solução senão voltar a entregar o mosquete e volver a casa.
Para se ter uma ideia da proliferação destas unidades de voluntários, refira-se que, entre 26 de Dezembro de 1840 e 14 de Fevereiro de 1850, as Ordens do Exército (O.E.) registam oitenta e cinco batalhões e companhias de voluntários de infantaria, cavalaria e artilharia, e deste número destacam-se vinte e nove batalhões de caçadores (Brito, 1988, p. 18 - 19). Para um país pequeno como Portugal, esta quantidade inusitada de unidades era flutuante, sendo os batalhões e companhias convocados e desmobilizados, conforme a situação política do momento. As mobilizações são intensas entre 1840 - 1841, no período que antecede o golpe de Fevereiro de 1842, e depois em 1846 - 1847, com o deflagrar da guerra civil da Patuleia. É de notar a proficuidade de batalhões ou companhias de caçadores, vinte e nove num total das já referidas oitenta e cinco unidades. É compreensível, dado o sentido de elite que o uniforme de caçadores, adoptado por estas unidades, conferia ao seu usuário, mesmo que o seu desempenho militar não correspondesse ao garbo da farda. Os uniformes de caçadores continuavam, na década de 1840, a manter as características básicas que tornavam tão solicitados por muitas unidades de voluntários. Assim, mantinha-se o castanho pinhão, com adornos em negro, como cores gerais para todas as peças do uniforme, factor que iria perdurar desde 1806 até, praticamente, ao plano de uniformes de 1885.
Continua

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uniformologia Militar Portuguesa.3

Capítulo 3. O período da Guerra Peninsular

Em 1806 foi decretado novo plano de uniformes, perfeitamente adaptado às modas militares da Europa e em que o obsoleto tricórnio, a véstia e a velha pantalona pelo joelho foram sustituídos pela barretina e por um fardamento mais simples e sóbrio, composto pela casaca de abas azul ferrete, agora a fechar pela cintura, e as calças, divididas em modelo de Inverno e modelo de Verão. O primeiro tipo de calça, em lã azul ferrete, apertava pelo tornozelo e complementava-se com polainas de pano grosso preto sobre a calça e o sapato. O segundo tipo era confeccionado em linho branco ou alvadio, e o seu recorte era invulgar, já que era rematada na sua parte inferior por uma pala semelhante a uma polaina que apertava entre o tacão e a sola do sapato. Os regimentos de linha eram agora diferenciados, somente, pela combinação cromática das golas, dos canhões das mangas e dos forros das casacas. Os uniformes da milícia, ou a segunda linha, eram semelhantes aos das tropas regulares e seguindo o método distintivo da primeira linha, apenas se colocando os nomes das localidades regimentais na barra inferior de latão da barretina. A terceira linha, constituída pelas ordenanças, de carácter fortemente rural, possuía fardamentos mais peculiares à base de tecidos grosseiros de cor castanha como o burel ou a saragoça, este um tecido de origens beirãs. Em 1809 a infantaria ligeira é convertida nos corpos de caçadores, assumindo por muitos anos o carácter, justificado, de tropas de élite e extremamente apreciadas pelos altos comandos britânicos durante a Guerra Peninsular. Os caçadores de infantaria caracterizavam-se pelos seus uniformes castanhos, geralmente, do já referido tecido de saragoça destinado a sargentos e praças e em tecidos mais nobres para oficiais. Indubitavelmente baseados nos regimentos de atiradores britânicos, uniformizados de verde, o 95th e o 60th Rifles Regiments, os caçadores, cuja técnica de combate se efectuava em ordem dispersa e valendo-se da perícia dos seus atiradores em alvos selectivos, ao contrário da infantaria de linha que actuava em ordem cerrada e cujo fogo se fazia maciçamente em descargas cerradas, necessitavam de uniformes que os dissimulassem na paisagem, evitando a sua detecção pelo inimigo. Este conceito foi igualmente adoptado pelos exércitos austríacos com os seus FeldJäger, fardados de cinza escuro e que foram adversários temíveis das tropas napoleónicas. Curiosamente estes últimos, apesar de possuírem caçadores a cavalo (Chasseurs à Cheval) com uma filosofia de uso de acordo com as tácticas de cavalaria ligeira, contavam com unidades de infantaria ligeira (Voltigeurs) mas desprovidos de armas raiadas, contrariamente aos portugueses e ingleses, fiéis usuários da carabina raiada de pederneira Baker, ou dos austríacos com a sua Jäger Karabine.
Ainda no contexto da Guerra Peninsular, a cavalaria e a artilharia portuguesas também se uniformizavam de azul ferrete, embora com fardamentos característicos, decretados pelo plano de uniformes de 1806, consistindo na farda curta, calção, bota e capacete de couro, tipo Tarleton, ornado com cresta de crina de cavalo para os primeiros e fardamento similar ao da infantaria para os artilheiros. As diferenciações regimentais faziam-se como na infantaria.
Apesar das profundas reorganizações levadas a cabo por Wellington e Beresford, os uniformes do Exército Português mantiveram o seu corte básico até à Guerra Civil de 1832-1834.

Continua

domingo, 9 de novembro de 2008

Uniformologia Militar Portuguesa.2

Capítulo 2. Breve Panorâmica sobre o séc. XVIII

As primeiras referências concretas a uma unidade vestimentária nas forças armadas portuguesas surgem em 1740, na obra A Milicia Pratica de Bento Coelho, já com a representação gráfica dos fardamentos. No entanto, estes apresentavam um estilo muito aproximado às modas militares francesas, com origem nas reestruturações levadas a cabo no período de Luís XIV e demonstrando a influência que a França tinha na corte portuguesa de D. João V, ele também um déspota esclarecido. Se um regime político servia de modelo, era normal seguir-se-lhe a estrutura militar, tanto na aparência como nos equipamentos e tácticas de combate, conceito que nos acompanhará ao longo deste texto e perfeitamente adaptável à realidade militar portuguesa do século XVIII até à guerra colonial de 1961-1974.
Com a crescente ameaça espanhola e no contexto da Guerra dos Sete Anos, o Exército, que havia chegado a um estado lamentável de desleixo e abandono por parte dos poderes políticos e militares, viu-se obrigado, na década de 1760, a um esforço de reorganização rápida, pressionada pelas incursões espanholas em território português. Apesar de uma primeira tentativa de regulamentação de fardamentos em 1762, que pela primeira vez apresentou uma série de gravuras coloridas, permitindo a visualização dos uniformes, vai ser em 1764, com o comando e organização do Exército entregues ao Conde de Lippe, que os uniformes vão ser devidamente regulamentados, tanto em termos teóricos como gráficos. Na verdade, os decretos de 1764 vão-se tornar no primeiro plano de uniformes do Exército Português, com um elevado índice de uniformidade, demonstrado pela adopção de uma cor base para as casacas de abas, o azul ferrete. As diferenciações regimentais surgiam nas cores dos canhões das mangas, golas, forros e, até 1800, pelas cores das véstias e pantalonas. Sem dúvida que se fosse possível, hoje, ver uma divisão de infantaria uniformizada pelo plano de 1764, alinhada num campo de batalha, ser-nos-ia fácil constatar que, apesar das referidas cores regimentais, distribuídas por várias peças de vestuário e peças de adorno, a mancha cromática dominante seria o azul ferrete regulamentar. Isto não excluía que existissem regimentos com cores individualizadas, tais como unidades de emigrados do pós - Revolução Francesa ou mercenários Suíços que chegaram a estar ao serviço de D. José e D ª Maria I, trajando-se aqueles com casacas vermelhas, mais uma vez à semelhança dos Cent Suisses da corte francesa, ou ainda certos regimentos destacados para as colónias e cujos uniformes chegaram a ser castanhos ou verdes. Com a administração de Lippe, o Exército Português tornou-se numa máquina de guerra eficiente e bem uniformizada, com a forte influência prussiana do seu mentor, capaz de dissuadir os arremedos expansionistas da coroa espanhola. Apesar do afastamento do Conde de Lippe causado pelo omnipresente despeito de muitos oficiais, provenientes de uma larga parte de uma aristocracia amorfa e medíocre, mas hábil em intrigas palacianas e ministeriais, o mote cromático estava estabelecido - o Exército Português ir-se-ia fardar de azul ferrete até 1908, altura em que adoptou o cinzento como cor de campanha. Após Lippe, as estruturas militares voltaram a um pronunciado declínio, tristemente demonstrado na Guerra das Laranjas de 1801, em que se impôs ao Exército o comando do idoso e incapaz Duque de Lafões, inábil em levar as tropas a conter as arremetidas das tropas espanholas do valido Godoy.
Continua

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Uniformologia Militar Portuguesa-1

Uniformologia Militar Portuguesa
1806-1892
O Jogo das Regras e Excepções

A historiografia militar em Portugal careceu durante muitos anos da abordagem científica das características que envolvem o complexo mundo dos uniformes militares. Estes passam para além da simples análise da forma, da cor e da simbologia, entram indubitavelmente na área das ciências sociais, no momento em que se começa a abordar a relação homem/uniforme.

Capítulo 1. Contexto Geral
A uniformologia tornou-se uma ciência auxiliar da História Militar e da História em geral, dotada desde cedo com metodologias apropriadas e com extensas componentes materiais e humanas. O uniforme, no seu sentido mais lato, surge a par com o nascimento, a partir de meados do século XVII, dos regimes do despotismo esclarecido e com o estabelecimento do centralismo estatal. Mesmo os eternos mercenários, que um pouco por toda a Europa vendiam os seus talentos na espada, na alabarda e no mosquete, tiveram que abandonar a sua liberdade vestimentária, para se submeterem às regras da uniformidade, como sucedeu com a guarda suíça dos reis de França e do Papa. O colorido individualista, que caracterizava o soldado europeu desde a queda do Império Romano do Ocidente até às guerras do Renascimento, deu lugar a uma gradual uniformização, que evoluía a par com a arte e o engenho mortífero da guerra, sobretudo com o advento da pólvora e das armas de fogo. A uniformização foi inicialmente imposta a nível regimental, com particular incidência nos fins do século XVII e durante todo o século XVIII, continuando a subsistir um xadrez assaz colorido nos campos de batalha daqueles tempos, mas denotando uma uniformidade organizada e obrigatoriamente visível através dos densos lençóis do fumo da pólvora negra.
O decorrer do século XIX iria finalmente fazer com que os exércitos se uniformizassem no seu todo, à excepção de alguns corpos de élite e das guardas reais e presidenciais.
Embora se possa falar de uma moda do vestuário militar, ditada geralmente pelas grandes potências e não poucas vezes adoptada pelos exércitos de pequenos países que pela aparência nela se reviam, isso não obstava a que a eficiência em combate desses pequenos exércitos, por vezes exuberantes mas mal armados e treinados, deixasse muito a desejar nos campos de batalha, criando uma diferença prática entre a aparência e a realidade.
Em termos uniformológicos, as forças armadas portuguesas não fugiram à regra das suas congéneres europeias, embora com as condicionantes ditadas pela periferia geográfica, económica e cultural de Portugal, aliadas a uma endémica vida politíca mal gerida.
Continua

Uniformologia Militar Portuguesa.

Irei dar inicio à colocação de um excelente trabalho de Sérgio Veludo Coelho, cujo titulo é:

Uniformologia Militar Portuguesa
1806-1892
O Jogo das Regras e Excepções

Gostaria de agradecer ao autor do texto tê-lo partilhado comigo, e deste modo com os leitores do Lagos Militar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 5 e última. Sérgio Veludo Coelho.

Continuação.
«O negociante Heinrich Anschutz ficaria obrigado a fornecer mensalmente 1250 espingardas completas, isentas de taxas de transportes e alfândegas ao serem carregadas no porto de Hamburgo com os respectivos custos de transportes a ficarem a cargo do negociante alemão. No documento era referido que os canos das espingardas, apesar de já virem provados de Suhl, conforme os regulamentos, seriam de novos analisados no Real Arsenal do Exército, através do processo de disparo de uma bala de chumbo do calibre da arma e uma carga de pólvora de guerra do peso da bala. Os canos gastos ou danificados seriam substituídos por outros à responsabilidade da Heinrich Anschutz Companie, que poderia nomear quem for necessário para assistir às provas em Lisboa. O pagamento seria feito mediante a entrega dos lotes de 1250 espingardas, o que incluía um adiantamento do pagamento das primeiras 1250 armas, no valor de 7750 Risedaller e que corresponderiam ao último pagamento do contracto, este que deveria chegar a um valor total de 186000 Risedaller de prata. Os pagamentos seriam feitos em Hamburgo, ao ritmo de entrega dos lotes das espingardas e nos casos em que a quantidade de armas ultrapassasse o lote, seria feito o acerto de contas por inteiro, tarefa a cargo de banqueiros alemães, comissionados pelo Governo português. O negociante Heinrich Anschutz, no final do documento, declarava que garantia, pelos seus bens, de que cumpriria todas as obrigações do contrato (AHM DIV 1-13-14-23 m0001/2/3). Carlos António Napion, Inspector do Arsenal Real do Exército, em ofício de 24 de Março de 1803, escrevia para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Conde de Linhares e Presidente do Real Erário, sobre os resultados da negociação para a aquisição das 30 000 espingardas ao negociante Heinrich Anschutz, e em que se fazia menção a um relatório em anexo, e datado de 18 de Janeiro de 1803, este referindo-se a ordens de pagamento dadas a João Schuback, um dos banqueiros comissionados em Hamburgo, do que seriam os primeiros lotes de espingardas a serem enviados para Portugal a partir daquele porto. No documento em anexo ao ofício, Napion dava conta da troca de correspondência com o agente financeiro de Hamburgo, João Schuback, relativa aos pagamentos do armamento a ser enviado para Portugal e sobre quais as melhores moedas a serem utilizadas em alternativa ao Risedaller, constante no contrato celebrado com a Heinrich Anschutz Companie, pelo que aparenta ser uma questão de câmbios. Para além das questões monetárias, foram apontados problemas com o fabrico das armas, nomeadamente o exagerado tamanho das platinas onde assentavam as fecharias de pederneira das espingardas e as guarnições, mais espessas do que nos modelos ingleses, o que significava o não cumprimento do contrato de fabrico, que se comprometia a respeitar em termos de dimensões e calibre o que fora solicitado no ano de 1802 (AHM Div 1–13–02 –13 m0053/55).«

Sérgio Veludo Coelho.

Fim.

domingo, 5 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 4 . Sérgio Veludo Coelho.

Continuação.
«O fabrico e prova dos canos, de ferro, na Fundição de Baixo e em Stª Clara, era levado a cabo pelos espingardeiros, designados de lima, forja e malho e sobre o seu trabalho pendia a responsabilidade de produzirem canos de qualidade para as armas de fogo, tendo em conta que cada cano teria que ser testado de forma a avaliar a sua resistência ao uso prolongado a às duras condições de combate. Aos espingardeiros era também atribuída a responsabilidade de testar canos importados do estrangeiros, ou mesmo as armas completas, com o objectivo de comprovar a fiabilidade dos materiais e a qualidade de construção do armamento. Os canos provados eram obrigatoriamente puncionados com a marca do Arsenal para comprovar que estavam aptos a ser montados nas coronhas e aplicadas as guarnições e fecharias. As armas ficavam completas com a aplicação das bandoleiras de couro e a atribuição das respectivas baionetas e bainhas. As coronhas das armas, tanto espingardas, carabinas e pistolas eram feitas pelos coronheiros, que tal como os espingardeiros eram ofícios que também se encontravam representados nas próprias unidades militares que contavam com este tipo de artífices para a manutenção regimental do armamento. Apesar do extenso número de mestres espingardeiros no Arsenal Real do Exército, alguma documentação do Arquivo Histórico Militar demonstra que as dependências do Arsenal responsáveis pelo armamento ligeiro não possuiriam capacidade para fabricar e prover a totalidade dos efectivos das tropas de 1ª linha, as milícias e as ordenanças. Tal pode ser demonstrado pela análise de um contrato de aquisição de armas a um fabricante alemão da zona da Turíngia transcrito num documento, de 11 de Setembro de 1802, e relativo à aquisição de 30000 espingardas ao fabricante Heinrich Anschutz Companie, de Suhl, no Henneberg, naquilo que viria a ser um longo processo com vários intervenientes, entre os quais o legado português em Berlim, Silvestre Pinheiro Ferreira, que actuava sob as ordens de António Araújo de Azevedo, Conde da Barca e Ministro do Princípe Regente D. João. Uma comissão ao serviço do Príncipe Regente, entregue ao já referido negociante de armas Heinrich Anschutz ficaria autorizada para a aquisição de espingardas para uso Exército Português, ao preço de 6 Risedaller e 20 Groschen cada uma. As espingardas seriam de calibre e proporções semelhantes aos modelos ingleses, à excepção das baionetas que conservando o peso da congénere britânica, seriam mais longas algumas polegadas (não especificadas no texto). Cada espingarda seria acompanhada por um sacatrapos e cada centena de espingardas traria um molde para fundir 12 balas em simultâneo. »
Continua.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 3 . Sérgio Veludo Coelho.

Continuação
«Para além do material de guerra o Arsenal fabricava ou coordenava o fabrico de todo o equipamento que caracterizava o soldado da época, uniformes, botões, barretinas, bonés, capacetes, polainas, sapatos, botas, roupa interior, suspensórios, cintos, talabartes, boldriés, patronas, bainhas de espada e baioneta, tendas, selas, xabraques, materiais de madeira, ferro, bronze e latão e todo uma ampla variedade de produtos transformados que chegavam às muitas oficinas do Arsenal, vindos de outras fábricas do país, como os laníficios das Beiras e Alentejo, sobretudo com os contratos firmados com os produtores de laníficios da Covilhã, Fundão e Portalegre. Na prática o Arsenal Real do Exército era uma das maiores unidades militares do país, que embora com uma maioria dos já referidos empregados civis, viria a ter uma unidade própria que era a Companhia de Artífices do Arsenal Real do Exército criada em 1803, mas que surgem com os seus uniformes definitivos no Plano de Uniformes de 19 de Maio de 1806. Foi esta Companhia criada pelo Decreto de 7 de Agosto de 1803 para ser integrada no Arsenal Real do Exército, com o intuito de organizar ou reunir as Companhias de Artífices dos quatro antigos Regimentos de Artilharia e que por regra geral se encontravam destacados no Arsenal, tendo essas companhias sido extintas precisamente no ano da criação da Companhia de Artífices do Arsenal Real do Exército. Foram escolhidos para comporem a Companhia setenta e cinco Soldados com as profissões de: ferreiro, forjador, oficiais de lima, carpinteiro de machado e de obra branca, segeiro, funileiro, torneiro de madeira, tanoeiro, etc. Para além dos setenta e cinco soldados Artífices, também eram Artífices todos os Sargentos com excepção para o Furriel. Tal não implica que este contingente fosse uma força de segurança operacional pois num ofício de Carlos António Napion, de 6 de Agosto de 1807, é referido o facto de o Arsenal Real do Exército se achar dividido em muitos edifícios e cada um deles ter pelo menos mais do duas portas, por onde tinham acesso os operários, os materiais e os géneros consumidos na produção e em que fazia reparo de que esses acessos não se achavam devidamente guarnecidos, dado a natureza do que lá se fabricava e trabalhava. Apesar de mencionar a presença de porteiros, Napion realçava da necessidade de colocar militares no controlo dos acessos para garantir a segurança das áreas. Na prática o que este ofício deixa transparecer é que os edifícios do Arsenal Real do Exército não tinham controlo de entradas e saídas, sem escalas de serviços das guardas, tais como nas unidades militares e assim o que Napion sugeria era que se estabelecesse uma guarda semelhante aos dos quartéis dos Regimentos de Linha, com oficiais de dia e guarda armada (AHM Div 1–13–02–13 m0049/51). »
continua.

O arsenal do Exército . Tabela 5 de 5.

[Tabela 5 de 5]
Contadoria dos Arsenais Reais do Exército, 12 de Dezembro de 1803
Joaquim Zeferino Teixeira
Fonte: AHM-DIV-1-13-19-01_m0004/17»


Continua

O arsenal do Exército . Tabela 4 de 5

[Tabela 4 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Tabela 3 de 5

[Tabela 3 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Tabela 2 de 5

[Tabela 2 de 5]
Continua

O arsenal do Exército . Parte 2 . Sérgio Veludo Coelho.


Devido à extensão da tabela referente a este post, serão colocadas 5 posts com as imagens do mesmo, que na sua totalidade serão a tabela existente trabalho.
*

* *

Continuação.

«O primeiro mapa, relativo ao mês de Dezembro de 1803, num período intermédio entre a campanha de 1801 e a primeira invasão francesa, no ano de 1807, descreve a produção de materiais de guerra e equipamentos nas dezoito oficinas do Arsenal que aqui são citadas, mobilizando um total de 1584 homens das várias classes profissionais.

Rellação das obras e mais géneros que sahiram das officinas deste Arsenal do Exército no mês de Novembro próximo passado, as quais foram recebidas pelo Almoxarife Vitorino António de Sequeira, a quem se carregarão em receita no mês de Dezembro de 1803.



Ver tabela supra.

[Tabela 1 de 5]

Continua

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O arsenal do Exército . Parte 1 . Sérgio Veludo Coelho.

LEGRAND, Charles, fl. entre 1839 e 1847 Arsenal do Exército em Lisboa [Visual gráfico / Legrand. - [S.l. : s.n., ca. 1842] ([Lisboa] : Off. Lith de M. e l Luiz. - 1 gravura : litografia, p&b ; 14,6x22,7 cm (esquadria). - Data baseada no período de actividade do autorCDU 725.18(469.411.16)Arsenal do Exército(084.1) 763(=1:469)"18"(084.1)

Hoje damos inicio ao primeiro texto de Sergio Veludo Coelho sobre o arsenal do exército.


O arsenal do exército - Parte 1.


Por determinação do conde de Lippe, pelo Alvará Régio de 24 de Março de 1764, a Tenência passou a denominar-se por Real Arsenal do Exército. Em 1791, o Alvará Régio de 21 de Outubro estabeleceu um regulamento pelo qual se deveriam reger os Arsenais Reais do Exército e Intendência Geral da Fundição de Artilharia e Laboratórios de Instrumentos Bélicos, sob a inspecção da Junta da Fazenda dos Três Estados. A principal repartição do Arsenal do exército situava-se no edifício da extinta Tenência, a antiga Fundição de Baixo. Mas este edifício também continuou a funcionar como depósito de peças de artilharia, espingardas e outras armas de fogo e brancas. As instalações do arsenal do exército não se encontravam num único edifício mas estavam compreendidas em várias dependências. Apesar disso o Arsenal Real do Exército, em Lisboa, entre os finais do século XVIII e no início do século XIX, não deixava de ser um pólo industrial de importância estratégica para a defesa nacional, sobretudo face aos desafios que teve de enfrentar e que resultaram das várias campanhas militares que foram consequência da intervenção militar portuguesa no Roussillon, a Guerra das Laranjas em 1801 e todo o período da Guerra Peninsular, entre 1807 e 1814. Nas infra estruturas do Arsenal de Lisboa destacavam-se quatro estabelecimentos principais que eram as instalações da Fundição de Baixo, o Parque de Stª Clara e respectiva Fábrica de Armas, a Fundição de Baixo e o Laboratório de Stª Apolónia. A maior parte dos operários do Arsenal eram civis e com os mais diversos ofícios. O armamento, equipamento, fardamento e outros materiais de guerra e de campanha eram exigentes em termos de fabrico, provas e manutenção e envolviam uma extensa variedade de ofícios que se podem observar nos extensos mapas abaixo transcritos, dizendo apenas respeito ao estabelecimento de Lisboa, com relações de materiais produzidos nas respectivas oficinas e a listagem dos trabalhadores.»
Continua.

Sérgio Veludo Coelho.

Agradecendo antecipadamente, venho informar que darei entrada no blog de novas imagens e alguns trabalhos deste autor, já conhecido dos amantes da época.
Entre eles, será publicado em partes um texto com o título.
Uniformologia Militar Portuguesa -1806-1892 -O Jogo das Regras e Excepções.
e outro sobre O arsenal do exército, tema em que está neste momento a trabalhar e cujo resultado esperamos ansiosos.
Ao Sérgio Veludo Coelho o meu obrigado.